By Victor
É universal o medo do toque.
Os biológos dizem que os cactos tem seus espinhos para evitar grandes perdas d'água. É mentira: na verdade, os cactos tão somente querem afastar algum aventureiro desconsolado de se aproximar e porventura tocá-los. Os biológos provavelmente também explicam os porcos-espinhos, mas é basicamente a mesma coisa.
O cão depois de uma certa idade fica ranzinza e rabugento, como qualquer bicho. Dispensa o toque e sai correndo afoito quando há alguma tentativa nesse sentido. Alguns mordem, o que assusta as crianças que, por sua vez, dispensam o toque dos nada carinhosos caninos.
Os livros velhos cansaram de serem tocados exaustivamente. Os de sebo, então, um horror. Sentem profunda indignação de serem vendidos à preços módicos e de irem parar em prateleiras desconhecidas; aturam isso por um bom tempo, mas sempre vingam-se: depois de serem aproveitados à última palavra, protegem-se de mais investidas desintegrando suas páginas aos serem abertos.
A televisão morre de medo do toque no fatídico botão de desligar, o decreto de silêncio irrevogável até o próximo programa digno de nota. Seus companheiros no crime, o general rádio e a recruta internet passam por temores semelhantes.
O homem tem medo do exame de próstata porque ele fere a virilidade, a moral e os bons costumes - alguns têm medo de pegarem gosto. Também tem medo de tomar um tapa na cara das mulheres porque sua dignidade simplesmente desapareceria. As mulheres, por sua vez, maldizem a mamografia jurando que é obra da mente maquiavélica de algum homem. Também tem medo de tomar de algum homem um tapa na cara, depois um soco, um chute, um estupro, uma gravidez indesejada, porque sua dignidade também desapareceria.
O pobre tem medo do toque da campainha, seguido de contas e dívidas chegando nas mãos dos pobres carteiros. O mendigo tem medo do toque de recolher e dos nada amistosos toques de algum indivíduo en passant indignado com tamanho absurdo. Aquele que protesta tem medo do toque das bombas de efeito moral e do efeito moral que as bombas da imprensa proporcionam.
Jesus Cristo tinha medo do toque das estacas cravadas em seus pulsos. Certamente desejou que ninguém passasse por dor semelhante. Alguns, em nome de Cristo, se aprimoraram: para evitar a dor do toque, as queimaduras, num fogo que arde e de fato se vê, ferida que dói e se sente, para o triste pesar do lirismo camoniano.
O preconceito tem medo do toque justamente por ser extremamente sensível a ele: basta o menor contato e explode. Entretando, se adapta melhor que os outros: sabe se travestir de costume, às vezes é até considerado virtude. Mas também morre de medo.
É de fato um medo universal.
Era uma vez um adolescente que adorava ir em livrarias. Ficava folheando livros de diversas sessões, lia revistas inteiras, checava o preço de todos os dvds, olhava admirado todos os objetos didáticos; enfim, a livraria era para ele algo como parqueas harborizados são para pessoas que praticam exercícios: um lugar ideal para se passar horas e horas, fazendo o que mais lhe agrada, ou simplesmente não fazendo nada, mas não fazendo nada num ambiente agradável.
Claro que essa comparação é inapropriada, pois ele não poderia ser associado nem de longe a qualquer coisa que remetesse energia e vitalidade: era franzino e magricela. Mas vamos ao que interessa.
Ao mesmo tempo que ele estava em um de seus habituais passeios em uma das livrarias que ele sempre visitava, havia uma adolescente, nessa mesma livraria, fazendo a mesmíssima coisa que ele fazia no momento: folheando loucamente montes de livros, quase ao mesmo tempo, para o desagrado dos funcionários de lá, que tinham que colocar os livros nas suas sessões originais depois que ela terminava, pois essa peste, além de não comprar nada, colocava livros de matemática na sessão de história, entre outros absurdos.
Para evitar descrições desnecessárias, basta pensar nela como no menino do começo do texto, só que com o gênero trocado, obviamente.
Era uma tremenda coincidência, uma "coisa do destino", que os dois que tinham tanto em comum estivessem tão próximos assim num lugar assim, diriam os supersticiosos. Já os céticos diriam que era óbvio que duas pessoas aficcionadas por livrarias estivessem numa livraria. Iriam além e também diriam que eles provavelmente iam na mesma livraria há bastante tempo (ponto para os céticos) e que não se encontravam apenas porque ficavam completamente absortos na sua compulsão quase doentia e também porque eram pessoas tímidas, feias e sem muito papo (e ainda assim tinham um ego quase maior que suas obsessões). E os céticos estariam certos, mas isso é cruel e ainda acaba com todo o fator romântico da coisa analisá-la assim. Então eles que explodam.
Nesse mesmo dia, os funcionários da livraria estavam deveras estressados, e mandaram os dois pararem com aquela coisa de fuçarem os livros daquele jeito, não colocando eles nos lugares certos depois. Franziram a testa como forma de protesto, mas obedeceram, não porque sabiam que eles estavam incomodando, mas sim porque eram medrosos demais para discordar. Revoltados com essa situação, foram para um daqueles objetos giratórios cheios de pocket books, onde eles podiam fuçar em tudo e colocar tudo fora de lugar, pois lá não fazia diferença onde estava cada livro.
E eis que ocorreu o momento mágico da nossa história.
Ambos estavam girando o objeto no mesmo sentido quando, de repente, avistaram um livro que estavam procurando há tempos. E só havia um exemplar. Que raridade, que achado...! Pé-rapados como eram, tinha que comprar pockets, mas nunca, nunca achavam aquele livro e justo agora, eis que ele aparecia! Toda a desavença com os funcionários foi imediatamente esquecida. Olharam fixamente para o livro e, ao mesmo tempo, foram em direção a ele e agarram-no.
Viraram-se para ver quem era o infeliz que ousava querer tocar o tão sagrado objeto que cada um procurara por tanto tempo (aqui é importante ressaltar que eles não teriam notado a existência um do outro se não tivessem pego no mesmo livro, mesmo estando a uma distância menor que 30cm) e seus olhos se encontraram. Ah, a magia do amor a primeira vista! Seus olhos - ambos com olheiras, pois ficavam até tarde em seus computadores não fazendo nada de produtivo - se encontraram e se observaram profundamente, cada um olhando atônito para o outro. A cena era digna das comédias românticas mais caricatas, que as meninas assistem sonhando com seu príncipe encantado, inteligente, bonito, bem humorado etc, e que os meninos acham piegas, mas que na verdade assistem escondido para tentar imitar o galã do filme e ter algum sucesso amoroso. Talvez essa impressão ficasse mais forte por haver um terceiro elemento ao fundo com um mp3, mas sem fones de ouvido, ouvindo e forçando os outros a ouvir Happy Together, num volume bem alto, diga-se de passagem. Esse indivíduo logo foi forçado a desligar seu som ou retirar-se da loja, pois os funcionários não se conformavam com tantos idiotas em seu estabelecimento num mesmo dia. Mas enfim, assim que ele desligou o som, o momento de desligamento da realidade dos dois acabou. Não diziam nada; só sorriam um para o outro, com suas caras inexpressivas, e pensavam:
"Essa menina quer o mesmo livro que eu... devemos ser almas gêmeas."
"Esse menino quer o mesmo livro que eu... devemos ser almas gêmeas."
Percebe-se:
a) como eles de fato tinham bastante em comum;
b) como eles eram experts em lógica (nós gostamos da mesma coisa, portanto, somos feitos um para o outro e nos amaremos pela eternidade).
Claro que o apropriado para uma história romântica seria cada um oferecer o livro ao outro, depois darem risinhos e ficarem vermelhos com tão bonita coincidência e por aí vai. Mas lembremo-nos da espécie de gente de que estamos tratando: gente que prefere livros à gente e que são bastante extremistas nesse aspecto. Então o que cada um fez foi puxar o livro para si. E seguiu-se o diálogo:
- Ahn, eu estava procurando esse livro faz tempo - disse o menino, tentando sorrir, mas fazendo uma expressão que era do mais sincero asco, ao mesmo tempo que puxava o livro para si.
- Que coincidência, né, eu também - disse a menina, com um sorriso amarelo que queria dizer: "seja um gentleman e largue isso agora!", enquanto puxava o livro com ainda mais força.
- Mas ah, acho que eu peguei ele primeiro! - disse o menino, com uma expressão com a qual evitaremos fazer qualquer analogia, e puxando o livro com tamanha força que quase o arrancou da mão da menina.
- Não, meu querido (num tom bastante irônico, que já não escondia seu descontentamento), fui eu! - e começou a puxar o livro com as duas mãos para ficar com vantagem na disputa novamente.
- Ah, solta logo, me dá, é meu! - bradou ele como uma criança. E o embate começou a ficar agressivo a partir daí, já que ele também começou a puxar com as duas mãos o livro.
Parêntese relevante: se os leitores estão se perguntando se algum dos funcionários estava vendo a cena, a resposta é: sim. Não só um, na verdade, e não só eles: um monte de curiosos começou a assistir a peculiar cena. Seria natural pensar que os funcionários iriam parar com aquela pouca-vergonha, mas estavam estressados demais e aquilo era um entretenimento bastante interessante, principalmente porque envolvia aqueles dois imbecis.
E puxavam o livro, como puxavam! Parecia um cabo de guerra, com a diferença de que aquilo não era uma corda e nem tampouco uma atividade recreativa, e sim uma competição que decidiria quem levaria aquela raridade para casa e poderia agraciar seus olhos com tão belo texto. Cada hora um deles tinha vantagem: a luta mais parecia aquela dança onde um vai para frente e o outro para trás, e vice-versa, só para o leitor perceber como aquilo tudo era muito estranho. Ridículo a parte, aquilo tinha um quê de espetacular. Já sabemos como haviam espectadores aproveitando o show, mas aquilo tomou proporções tão grandes que eles haviam tomados lados; ouvia-se o clamor popular por esse ou por aquele, uma verdadeira torcida, e cada um deles parecia estar inspirado, parecia perceber que aquela luta significava cada vez mais, e que, se perdesse, além de não ficar com o livro, não ficaria com a glória da vitória. Passava a ser uma questão de honra!
E puxavam, puxavam, puxavam... até que o inesperado, o impossível aconteceu. Parecia a Providência dizendo para os dois idiotas que eles tinham ido longe demais.
O livro rasgou-se em dois.
"Oooooh!", ouvia-se da platéia que estava acompanhando tudo, sem perder nenhum lance. Claro que agora os funcionários tinham de fazer alguma coisa, afinal, eles tinham acabado com a propriedade da loja e teriam que pagar com isso. Mas até que eles não foram tão agressivos com o sermão, até porque tinham relaxado com aquele espetáculo. Só pediram que aquilo não se repetisse (aqui apelando para a psicologia reversa) e que pagassem o estrago.
E foram, contrariados, ao caixa. Não diziam nenhuma palavra um ao outro, mas trocavam olhares do mais sincero ódio. Tudo o que queriam era degolar o pescoço e usar as tripas do outro em alguma espécie de ritual obscuro: muito interessante notar como eles eram pacíficos para pessoas que tinha um hobbie tranqüilo como ler e como eles não estavam preocupados com aquilo, de maneira alguma.
Lá no caixa, a atendente, toda sorrisos - eles acabaram com o mal-humor generalizado de todos no lugar, é preciso conceder - disse aos dois:
- Hahaha, os dois extrapolaram um pouco, né? Não vão fazer isso de novo - disse, tentando, mas falhando miseravelmente, segurar o riso. São R$7 para cada um.
Pagaram. Estavam humilhados: nenhum dos dois tinha o livro que queria, tinham gastado dinheiro com um livro que não puderam ler, viraram motivo de chacota para toda a livraria e provavelmente estariam marcados para sempre, naquela em específico, como aqueles dois da briga do livro, ou alguma denominação tão ridícula quanto. E tinham perdido a chance de se conhecerem melhor, pois realmente tinham muito em comum - uma pena, agora se odiavam para o todo o sempre, até que a morte os separasse. Saíram cabisbaixos da loja, prometendo, cada um para si, que nunca mais colocariam os pés ali. Nem ali e nem em nenhuma outra livraria.
E enquanto saíam da loja, um moça que deveria ter lá pelos seus 20 e poucos anos, foi para o caixa e perguntou à atendente o que tinha sido toda aquela comoção.
- Ah, tinham dois adolescentes que estavam brigando porque acharam um livro ao mesmo tempo e não queriam dar o braço a torcer; parece que 'tavam procurando há bastante tempo. Mas... olha só! É esse mesmo que você tá comprando! Onde é que você achou?
- Eu peguei naquele troço que tem os pockets.
- Mas eles brigaram justamente porque só tinha um! Como você achou outro?
E ela respondeu apontando o negócio com os pockets, numa fileira abaixo da que os dois energúmenos acharam o livro, e que estava completamente cheia do tal.
Depois, mais tarde, cada um dos dois refletiu sobre como aqueles livros que estavam na fileira abaixo daquele negócio de pockets, e que eles só tinham visto de relance, tinham uma capa parecida com aquele pelo qual brigaram. Ficaram pensando, será que tinha um monte deles e a gente passou por todo aquele ridículo por nada?
Nah! Ninguém seria tão idiota assim, não é mesmo?
"Será? Será que ele sabe? - perguntou-se em silêncio a mais perturbada das almas, em seus devaneios terríveis e desoladores. Cada conjuntura que levantava trazia consigo uma infinidade de possibilidades horrendas, uma pior que a outra. A culpa que deveria sentir por seu pecado não lhe afligia; não acreditava em Deus e não temia, portanto, represálias divinas. Tanto que mesmo nessa hora de angústia, não apelou a Deus. Permeneceu fiel à sua - falta de - convicção. Poderia sucumbir à tentação de traí-la, mas se tinha alguma dignidade que lhe restava dessa situação, era ser irreductível na sua decisão de não pedir a Deus um deus ex machina. O que temia, o que lhe destruia por dentro, era que um terceiro, alguém completamente alheio àquele problema - ainda que não a ele especificamente, ou melhor colocando, justamente por não ser um completo estranho - soubesse desse segredo. Não se auto-censurava, mas sabia que seria condenado por tudo - a sociedade - e todos - todos que soubessem. Por isso, sentiu medo, medo não, pavor, pavor, uma sensação ruim como havia experimentado pouquíssimas vezes antes, e nunca com tamanha intensidade; e agora, para agravar sua situação, não possuia escapismo algum que fosse, nada para aquietar sua alma perturbada, ninguém para dizê-lo que estava tudo bem. Mal conseguia disfarçar seu nervosismo, tamanhas as proporções que seu medo tomara. Não se concentrava em nada; não conseguia se distrair. A despeito de toda a inquietação, viu no conforto da cama um fio de lucidez e agarrou-se a ele. Tentou voltar ao ponto de partida de sua auto-destruição; conseguiu. Notou que a conjuntura como um todo não deveria ter lhe preocupado de maneira alguma; o que lhe fez cair nessa armadilha psicológica foram os detalhes. Sempre os malditos detalhes - quisera ele não ter prestado atenção a esses fatos que aparentam ser insignificantes; eles foram sua ruína. O futuro se abria para ele como uma cova profunda, muito além dos sete palmos, sem retorno, sem esperança. Se ele caísse lá, não voltaria. Não haveria uma mão que fosse capaz de trazê-lo de volta, mesmo que ela tivesse a melhor das intenções em fazê-lo. Não. Tinha que acalmar-se. Não podia pensar em resultados tão ruins. Todo esse medo, tudo isso era infudado; são só detalhes, dizia. Repetia, em voz alta, porque assim parecia haver um outro elemento dizendo-o isso, que ficaria tudo ok, que ele estava ficando louco - ironicamente, talvez tenha sido essa sua observação mais lúcida - em pensar tudo aquilo. Todavia, não parava. Suas unhas já não mais existiam; já roía a carne. Seus olhos se mostravam arregalados; não conseguia acalmá-los. O que fazer? Estava sendo levado à loucura; não poderia resistir por muito tempo. O relógio na parede anunciava 4h da manhã; há quanto tempo estava ele ali, sozinho, completamente sozinho, sem perspectiva nenhuma, sem achar no que se agarrar? Então, em seus colchões que longe estavam de serem confortáveis, ele não agüentou mais. Chorou. Chorou como não chorava havia tempos, com toda vontade que poderia ter. Chorou por tudo: sua infância, sua adolescência, seu amadurecimento... chorou por todas as desgraças, por todas as conjecturas - reais ou não - que o levaram a ficar naquele estado. Chorou por não ter chorado antes; por não ter chorado nos braços de quem amava; por não ter chorado para seus pais; por saber que estava completamente sozinho e que isso era culpa dele. Chorou como se não fosse mais haver outra possibilidade de fazê-lo nessa existência. Chorou por saber que ele estava se sentindo a criatura mais miserável e perseguida do mundo, mas por, no fundo, não verdadeiramente acreditar que alguém fosse dar tanto importância para sua existência, nem que fosse para destruí-la. Chorou porque queria que alguém descobrisse o que ele guardava para si a sete chaves. Chorou porque queria que alguém o destruísse e porque sabia que, se ao menos isso acontecesse, ele sairia de sua letargia emocional, que o envolvera há tanto tempo e o estagnara nesse quesito. E continuou chorando até quando isso foi possível. E, enfim, o inesperado aconteceu. Depois de praticamente se desidratar, da lágrima surgiu o sorriso. Um sorriso sincero - sincero como ele mesmo nunca havia mostrado, nem para ele mesmo, nem para ninguém. O que era aquela ambigüidade de sentimentos, aquela mudança tão brusca da desgraça para um aparente alívio? Foi um alívio, mas não aparente, não superficial: nunca antes havia ele se sentindo tão leve, tão despreocupado, tão tranqüilo. De nada adiantara chorar até se desidratar; isso não resolveria seus problemas, de maneira alguma. Mas aquele escapismo era maravilhoso. Se arrependeu verdadeiramente de ter retido líqüido por tanto tempo assim. Era tolice. Não importava; chorando ou não, ninguém lhe daria a mínima. Que fizesse sua existência miserável um pouco mais suportável, então. Abandonou todas as conjecturas que fizera na noite passada - pois já era dia quando ele notara como estava refeito - e se entregou. Não estava feliz. Mas estava aliviado e sorria. Um sorriso um tanto quanto perturbador, uma quase insanidade que os dentes amarelados insistiam em mostrar. Um observador com certeza teria se chocado antes a tão bizarra visão. Mas não havia observador, então ele podia ostentar seu sorriso maníaco em paz. Respirou fundo e continuou sorrindo. Afinal, o amanhã que explodisse com todos os problemas do passado e do presente."
Ah, a chuva! Se há algum fenômeno natural que traz junto de si tamanha melancolia como esse, eu o desconheço. Alguém poderia argumentar que a neve é tão poeticamente triste quanto, mas este que vos fala mora num país tropical, o que torna difícil constatar se isso é verdade. E, de qualquer forma, falo por mim: a neve não me deixaria triste, muito pelo contrário.
Enfim, voltando à chuva. Não é estranho, pela melancolia que parece ser própria do fenômeno, que ela sirva de metáfora para aludir a temas como a solidão, o sofrimento, a angústia e etc. Não faltam exemplos de como ela é usada nesse sentido em todo tipo de produção artística, seja literária, cinematográfica, musical (e você, leitor, certamente conhece montes de músicas que envolvam a chuva - elas provavelmente estão sendo reproduzidas em sua cabeça nesse exato momento; é inevitável!), entre outras.
Mas longe de mim querer criticar esse tipo de produção! Seria muito hipócrita de minha parte, visto que aprecio-a bastante, e exemplos de textos onde a chuva está presente, nesse mesmo blog, são inúmeros. Nada mais belo e triste do que a imagem do mundo se acabando lá fora, enquanto o eu-lírico se acaba por dentro, solitário, muitas vezes acompanhado de cafeína - por favor! ela é presença quase obrigatória - e/ou cigarros. Por mais que ela tenha sido usada quase à exaustão, sua força permanece. Seja talvez pela já mencionada melancolia que o fenômeno parece trazer consigo, seja pelo fato de que todos, de certa maneira e em diferentes extensões, conseguem se identificar com a imagem, o fato é que ela não deixa de agradar; é como Romeu e Julieta e o tema que lá é trabalhado, não se desgatam e - espero eu - não se desgastarão.
O que eu proponho, então, com esse texto? Quero apenas chamar a atenção para perspectiva diferente, agora que penso eu já ter ficado claro que a melancolia e a chuva tem um valor poético que transcende o tempo. Uma perpsectiva que eu não vejo com tanta freqüência quanto a outra e que é seu completo oposto: a da chuva não associada à melancolia ou quaisquer sentimentos "ruins", e sim à sentimentos "bons", que vão desde a libertação até o amor (realizado, veja bem)! E a beleza que está num grupo de crianças brincando na chuva, contrariando a ordem de seus pais de ficarem em casa - e que terminam sua inocente contestação da autoridade com um resfriado, mas sem arrependimento? E a beleza do jovem enamorado que levanta a cabeça para sentir as gotas de chuva em sua boca, não se importando com nada mais, fora o sentimento que lhe completa? E a beleza dos amigos correndo para pegar o ônibus, somente para serem encharcados por um infeliz que jogou neles toda a água da viela, a raiva e o prazer de xingar juntos a pessoa desalmada que faz uma coisa dessas, os risos pela situação ridícula em que se encontram? E a beleza dos jovens perdidos num amor extasiante, com seus corpos umedecidos e colados, dando beijos lascivos enquanto a chuva castiga o resto do mundo, com eles completamente alheios a isso? Teríamos esquecido todas essas imagens? Teríamos sido doutrinados tão bem a aceitar a chuva como a representação da tristeza, ignorando assim outras possíveis interpretações? Teríamos esquecidos da beleza não melancólica da chuva porque, para nós, ela nunca de fato existiu?
Eu não saberia dizer. Só digo que sinto-me feliz de ter lembrado - ou talvez seja até mais apropriado dizer "ter me dado conta" - de como a chuva pode ser bela de maneiras tão distintas; parece que agora consigo ver plenamente sua beleza, parece que agora consigo entender porque ela é um tema tão recorrente na arte. E espero que o leitor compartilhe comigo essa alegria. Proponho, então, um brinde à chuva, como agradecimento a tudo que ela fez para o ser humano: brindemos, tanto à alegria de sentí-la até os ossos que os amantes vivenciam, quanto ao conforto ao solitário que ela fornece! E proponho ao leitor, principalmente ao solitário, que, da próxima vez que cair a chuva - e os conterrâneos da terra da garoa certamente não terão que esperar muito -, saia e sinta toda a beleza e libertação que ela nos proporciona. Saia e sinta a chuva como as crianças, como o jovem enamorado, como os amigos, como os amantes - pois vê-la e sentí-la somente como o solitário é desgastante demais.
PS 1: É a primeira postagem com o layout novo, como acho que deu pra notar. Opiniões sobre ele também são bem vindas. Valeu, Ked!
PS 2: Como o Ked também lembrou, com um pouco de atraso, sim, esse blog já tem nas suas costas mais de um ano e mais de quarenta textos produzidos! Ele fez aninhos dia 28 de novembro de 2008, e hoje tem 1 ano, 1 mês e 16 dias, se não errei na conta (dêem um desconto ao pseudo-humanóide). É uma vitória para quem desiste de tantos projetos tão facilmente como eu faço, apesar das atualizações estarem cada vez menos constantes (e não prometo nada em relação a isso pra não me comprometer). Então agradeço muito a vocês, fiéis leitores desse jovem tolo!
Sou de Humanas. Não gosto de números desde que me conheço por gente; História e Geografia, por outro lado, sempre foram paixões. Bem como Português e Redação; e, evidentemente, aprecio escrever. Deve ser por isso que eu tenho esse blog, mesmo ele estando morto, não? (...)
Isso de não gostar de números é uma verdade consolidada - e todo o resto também. Mas não é isso que eu contesto. É que, para alguém que supostamente tem a habilidade de se expressar bem, seja pela fala, seja pela escrita, eu ando tendo dificuldade. Tanto que esse texto que está sendo digitado não é nada mais que uma tentativa de mostrar a mim mesmo que eu consigo, de fato, escrever o que quer que seja para expressar o que quer que seja - ou sobre a falta do que se expressar. Esse texto deveria era virar um arquivo de WordPad para depois cair no esquecimento completo, apodrecendo em alguma pasta do computador, até o dia em que eu resolvesse deletá-lo. Mas não - cá estou eu, escrevendo sobre não conseguir escrever, e ainda vou ter a ousadia de fazer disso uma postagem e esperar comentários. Patético.
O que acontece, afinal? Qual era minha inspiração pra escrever? O que eu julgava ser minha única motivação mostrou não ser - porque, se o fosse, a produção andaria bem, obrigado. Porque não consigo mais? Nunca achei que fosse realmente sentir falta de colocar o sentimento que fosse no papel - no caso, na máquina. Nunca tive um apreço muito grande pelo o que eu escrevia, mas hoje sinto-me frustrado, como se uma parte importante do que sou tivesse sido perdida, agora que a incapacidade de transpor o que se passa de mim para cá se perdeu. As palavras se confundem, um emaranhado de complicações em dizer o mais simples aparece; dizer o simples indiretamente, então, é um objetivo inalcançável. As palavras, em quem eu sempre confiei, me traíram e me deixaram sem refúgio algum. Onde estão agora? Onde?
Continuo sendo de Humanas. Mas agora com uma ressalva: sou um humanóide que odeia números e que agora, ironicamente, está aprendendo a antipatizar com a (falta das) palavras.